Chegamos à era da relevância

Novembro 3, 2026 6 min de leitura Vanessa Fontes

Será que a IA nos fará voltar para os tempos da inteligência natural?

Primeiro, veio a onda da presença. Você precisava estar nas redes, criar um perfil, abastecer a página com uma certa periodicidade e mostrar que existia. Depois, a régua mudou: não bastava estar ali, era preciso postar com frequência. A quantidade de publicações passou a ser quase um indicador de autoridade. Publica todo dia? É referência. Tem engajamento? É influencer. Não aparece no feed? Talvez nem exista.

Então veio a inteligência artificial. Produzir conteúdo ficou mais fácil, rápido e acessível. Em tese, isso seria ótimo. Mais gente com voz, mais ideias circulando, mais conhecimento compartilhado. Na prática, porém, a facilidade de produzir também abriu as portas para uma enxurrada de conteúdos gerados por IA, fórmulas prontas e reflexões que parecem profundas até a gente terminar de ler e perceber que não aprendeu absolutamente nada.

Quando o feed vira vitrine de conteúdo genérico

O LinkedIn, que nasceu com a proposta de conectar profissionais e oportunidades, virou, em muitos momentos, uma mistura de vitrine de egos com coluna social. Todo mundo tem uma lição para ensinar, uma jornada de superação para contar, uma opinião definitiva sobre liderança ou uma foto de evento para provar que esteve onde todo mundo precisava saber que esteve. E, entre um post sobre resiliência e outro sobre sair da zona de conforto, seguimos rolando a tela em busca de alguma coisa que realmente valha o nosso tempo.

Só que o tempo está acabando. Vivemos uma espécie de estafa digital coletiva. É o bombardeio de notificações, a sucessão infinita de vídeos, os textos que começam com uma frase de impacto e prometem revelar cinco segredos que ninguém conta. Tudo disputa a mesma coisa: alguns segundos da nossa atenção. E quem vive conectado talvez reconheça aquela ansiedade contemporânea que vem com a tela sempre aberta, a cabeça cheia e, de vez em quando, uma pálpebra tremendo para lembrar que o corpo também faz parte dessa equação.

Nesse cenário, talvez estejamos entrando em uma nova fase das redes profissionais: a era da relevância.

A IA pode combater o conteúdo gerado por IA? 

Há alguns meses, o LinkedIn anunciou mudanças em seu sistema de distribuição de conteúdo, com o objetivo de priorizar publicações consideradas úteis e relevantes para os usuários, em vez de privilegiar apenas o engajamento. A discussão ganhou força com o avanço da inteligência artificial generativa e com a facilidade de produzir textos em escala. Ao ler o artigo de Guilherme Ravache, publicado no Valor Econômico, sobre como os agentes de IA podem acelerar a produção de conteúdo ruim e por que isso pode acabar sendo positivo, fiquei pensando nesse paradoxo: será que a própria inteligência artificial vai ajudar a combater o conteúdo medíocre que ela tornou tão fácil de produzir?

A lógica faz sentido. Quanto mais conteúdo genérico, o chamado AI slop, é produzido, maior a necessidade de mecanismos capazes de distinguir o que merece ser visto. Se a tecnologia permite publicar milhares de textos em poucos minutos, ela também pode ajudar a identificar padrões repetitivos, fórmulas previsíveis e publicações que ocupam espaço sem acrescentar muito à conversa.

Conteúdo feito por IA é sempre genérico? 

Existe uma diferença importante entre identificar um texto genérico e reconhecer algo relevante. Um conteúdo pode ser bem escrito, ter uma estrutura impecável e até gerar milhares de curtidas sem necessariamente trazer uma ideia original, uma informação confiável ou uma contribuição real. Da mesma forma, uma publicação simples, feita sem qualquer ferramenta sofisticada, pode provocar uma reflexão que permanece com o leitor muito depois de ele fechar o aplicativo.

É aí que a discussão deixa de ser sobre tecnologia e passa a ser sobre responsabilidade editorial. Em uma economia da atenção, na qual o tempo se tornou um ativo cada vez mais disputado, conquistar alguns segundos de alguém não deveria ser confundido com entregar valor. Retenção não é sinônimo de relevância. Alcance não é sinônimo de credibilidade. E engajamento, por si só, não transforma uma opinião em conhecimento.

Quantidade ou qualidade de conteúdo? 

A internet democratizou a produção de conteúdo, e isso é uma conquista. Mais pessoas podem compartilhar experiências, apresentar pesquisas, construir reputação e participar de conversas antes restritas a determinados espaços. O problema nunca foi ter gente demais falando. É termos criado incentivos para que todo mundo fale o tempo inteiro, mesmo quando não tem muito a dizer.

E, quando a quantidade vira prioridade, a qualidade costuma pagar a conta.

Não acho que a solução seja demonizar a inteligência artificial ou defender uma volta romântica a um tempo em que produzir conteúdo era mais difícil. A IA é uma ferramenta, e seu impacto depende também de como escolhemos utilizá-la. Pode ajudar a organizar ideias, ampliar o acesso à informação e liberar tempo para o trabalho intelectual. Mas também pode nos gerar uma série de conteúdos que, como dizia a propaganda do Estadão do início dos anos 2000, só tem cara de conteúdo.

A diferença está menos na ferramenta e mais na intenção, no repertório e no critério de quem a utiliza.

O que vai valer atenção nas redes 

Talvez a próxima disputa das redes não seja por quem publica mais, mas por quem consegue justificar a atenção que pede. No fim, não precisamos de mais especialistas em tudo, nem de mais frases motivacionais sobre como transformar desafios em oportunidades. Precisamos de informação que ajude a tomar decisões, de experiências que ampliem perspectivas, de opiniões que tenham argumentos e de profissionais que entendam que construir autoridade exige mais do que aparecer com frequência no feed.

Até porque, se tudo é conteúdo, nada parece ter tanta importância assim. Talvez a resposta para um futuro de conteúdo relevante e que ajude as pessoas a formarem massa cinzenta esteja justamente naquilo que não pode ser automatizado com a mesma facilidade: experiência, pensamento crítico, responsabilidade e credibilidade.

E, convenhamos, já passou da hora de isso valer mais do que uma frase de efeito acompanhada de uma foto em um palco.